• "É Sabina Freire uma brasileira, nascida em Mato Grosso, onde toda a gente usa tanga, na frase de D. Maria Freire, sua sogra. Não parece transparente a intenção do autor, ao dar-lhe semelhante procedência, determinar logo, por um processo objetivo, um caráter semibárbaro? E como se a quisesse explicar, pela ascendência do sangue, na complicada anatomia moral, dá-lhe como pai um alemão ideólogo e fantástico, espécie de alquimista sonhando o niilismo platónico, que lhe deixa, à hora da morte, uma herança sinistra: dois minúsculos frascos, contendo, um deles, ácido cianídrico: a morte fulminante; o outro, um corrosivo misterioso: a morte lenta! Assim preparada para a libertação e para a vingança, o fantástico ideólogo deixa-a sozinha no mundo e desaparece da Terra."

  • "Eu era novo então, forte, petulante, fulgurando a miúdo em súbitas exultações, na plena fase de herói, orgulhoso, dominando a vida e gastando-a com fausto, perdulário sibarita que a sorvia, sorrindo, nas aparências luxuriantes e a sugava até à essência saborosa ou amarga... Mas aprazia-me viver a minha vida e a meu modo, imperterritamente livre no vastíssimo jardim sem barreiras da minha solidão e, se por entre multidões - ainda mesmo nos tumultos de Carnaval, quando a alegria é pública -, encelado como um alquimista que decantasse idealizações."

  • "A hora da partida, talvez na existência o mais delicioso, esquisito momento, onde tudo é alacridade, gozo, esperança... Fugir a todas as prisões, mesmo às mais doces, supor que um instante basta para borrar todo o usado cenário da vida atual e que outra vida começa, enredada de incertezas, sim, mas pejada de larguíssimas promessas, de inquietadoras visões, de frutuosas quimeras, nada que se compare a esse momento de alvorada, tanto mais incitante quanto mais a miúdo repetido, a cujo feiticeiro rejuvenescimento a alma se dilata ilimitadamente."

  • Naquele desgraçado inverno a Holanda converteu-se em miserável charco sobre o qual incessantemente caísse uma chuvinha peneirada por buracos de agulhas. Toda a gente concordava em que não havia, ali, memória de estação assim temperada, aquosa e lôbrega. Durante os meses de dezembro e janeiro nunca se apagou a iluminação pública e nas ruas mais desafogadas de Amesterdão os transeuntes, que pareciam evolucionar dentro de um infindável aquário, para se reconhecerem necessitavam socorrer-se dos candeeiros, a cuja luz indecisa ainda assim mal se divisavam feições sob o imprescindível abrigo dos capuzes de borracha. Formavam então grupos de fantasmáticos escafandros, que, observados à distância, trocavam silenciosamente gestos deformados e a breve trecho, desfeitos, como que se desvaneciam por entre os húmidos véus de gases crepusculares, ininterruptamente agitados e suspensos do céu tenebroso.

  • "Não há palavras que descrevam as maravilhas do seu corpo, a sua carne rosada e firme desmaiando, nas curvas, no tom mate de açucena; os pés de estátua grega; o ventre polido e retraído, nascendo das coxas roliças como um escudo de prata fosca e partindo-se, no remate, para inflar nos dois agudos pomos a que as vacilantes chamas do fogão davam reflexos iriados; e os longos braços a um tempo frágeis e marmóreos!...
    Os meus lábios cobriam sofregamente a carne que aparecia enquanto as mãos teciam em volta do seu corpo uma apertadíssima rede de carícias..."
    Texto segundo o Novo Acordo Ortográfico.

empty