• "É que eu sou realmente a morgadinha dos Canaviais. Quero dizer, minha madrinha vivia na quinta dos Canaviais, uma quinta que fica daqui perto. Era uma senhora velha, rica, elegante e muito caprichosa; chamavam-lhe todas a morgada dos Canaviais. Tomou-me ela afeição e, sempre que passeasse, me havia de levar consigo; daí começaram a chamar-me, de pequena, a morgadinha. Quando ela morreu deixou-me tudo quanto possuía; nesse legado entrava a quinta dos Canaviais, de que sou proprietária ainda. Foi uma como confirmação do título, que já desde criança me tinham dado; e para todos sou aqui a morgadinha, título na verdade pouco elegante e que tão mau conceito fez conceber ao primo Henrique da possuidora dele."

  • "No andar superior eram os quartos de D. Margarida, os quais abriam para uma ampla varanda de bem torneados balaústres, onde vegetavam em vasos de louça as flores prediletas da senhora; era também aí a sala dos serões familiares, e finalmente o quarto de Tomás. Este ficava situado em um dos ângulos do quadrilátero e imediato ao corpo lateral do edifício que fora destinado para capela.
    Durante as devastações que o país sofrera nas sucessivas guerras civis dos últimos períodos da nossa história, a casa de Entre Arroios não fora mais do que as outras respeitada, e os estragos que, no resto da habitação, tinham já sido cuidadosamente reparados, conservavam-se ainda visíveis no pequeno templo, onde havia muito se não exercia por isso o ofício divino."

  • "Fala-se em diversos pontos das nossas províncias, com a seriedade que é própria a uma arreigada crença, de tesouros enterrados, que os mouros por aí deixaram, na esperança de voltarem um dia a resgatá-los, e já não têm sido poucas as escavações empreendidas no ávido intuito de os descobrir.
    Esta mesma noção histórica do povo é a que dá lugar a um outro frequente facto. Quando, no centro de qualquer aldeia, se eleva um palácio, um solar de família, distinto dos edifícios comuns por uma qualquer particularidade arquitetónica mais saliente, ouvireis no sítio designá-lo por o nome de Casa Mourisca, e, se não se guarda aí memória da sua fundação, a crónica lhe assinará infalivelmente, como data, a lendária e misteriosa época dos mouros.
    Era o que sucedia com o solar dos senhores Negrões de Vilar de Corvos, que, em três léguas em redondo, eram por isso conhecidos pelo nome dos Fidalgos da Casa Mourisca."

  • Poesias

    Julio Dinis

    As Poesias de Júlio Dinis imprimiram se pela primeira vez em volume no ano de 1874, quando já descansava, havia três anos, sob a lousa do sepulcro, o cérebro que as inspirara.
    Não se pôde dizer em absoluto que saíssem póstumas, porque algumas delas já tinham sido publicadas, ou na Grinalda ou intercaladas nos seus romances. A coleção formou se, pois, não só com estes elementos, já conhecidos e justamente apreciados do público, mas com outros que existiam inéditos nos manuscritos do autor.

  • Este romance desenha um retrato de uma aldeia portuguesa com personagens inesquecíveis: o Reitor da aldeia, José das Dornas e os seus filhos e, principalmente, João Semana, que se tornou símbolo do médico da província. Daniel, o filho mais novo de um lavrador bem-sucedido, parte da aldeia levando no coração a imagem da namorada de infância, a qual não tarda em apagar-se na capital. Quando regressa, é Clara, a irmã de Margarida, que atrai a sua atenção. Só que Clara é também a noiva do seu irmão Pedro...

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