Etnográfica Press

  • Para perceber em toda a sua complexidade como é que as grandes empresas portuguesas se relacionam com as grandes famílias que são suas proprietárias era necessário optar por urna metodologia etnográfica. O presente livro é exemplo de como um estudo intensivo de um número de casos relativamente pequeno, pode bem ser mais revelador do que estudos que, sendo mais abrangentes em termos numéricos, estão dependentes de modelos de interpretação menos intensivos. A elite que Maria Antónia Pedroso de Lima caracteriza corresponde ao contexto social de maior acumulação de riqueza a nível nacional português e até a nível internacional. Contudo, não poderíamos afirmar que se trata da elite portuguesa, já que a vida política e cultural portuguesa contemporânea é controlada por outros sectores sociais cuja radicação social nas classes medias profissionais é bem distinta da destas famílias empresariais. O relativo distanciamento destas famílias dos meios políticos e mediáticos nacionais posiciona-as numa espécie de marginalidade superior por relação aos contextos hegemónicos dominantes na sociedade portuguesa contemporânea. (...)

  • É inegável que a prostituição sempre existiu, mas nunca como no século XIX chegou a agitar tanto a paciência das correntes mais austeramente moralistas que sempre julgaram primar pelo «bom senso». Quase todos os grandes escritores naturalistas do século XIX se ocuparam da figura humana da prostituta: recordem-se Zola, Tolstoi ou Dostoyewsky. Todos eles matizaram com traços dramáticos a personagem frequentemente arrojada dos meios camponeses à vida urbana e empurrada pela miséria para a prostituição. Também a nossa literatura não deixa de evocar essa imortal personagem do quotidiano que é a prostituta. Abel Botelho consagrou-lhe o seu Livro d'Alda; Alfredo Gallis escreveu As Mulheres Perdidas; a Princesa de Boivão, de Alberto Pimentel, conta a história de uma pobre desventurada a quem o amante vingativo abre no corpo as « quatro letras ferreteantes » ; A Bandeira, de Lino Macedo, é mais uma historieta de uma pobre e desamparada cortesã; Rocha Martins dedica dois livros a cortesãs régias: A Madre Paula e a Flor da Murta, como Andrade Corvo já havia dedicado um à célebre Calcanhares : Um Ano na Corte. No teatro surgem, com o virar do último século, A Pérola, de Marcelino de Mesquita (à época proibida por «imoral») ; A Severa, de Júlio Dantas ; a Rosa Enjeitada, de D. João da Câmara, e o Fado, de Bento Mantua. Contudo, o primeiro estudo sério sobre a prostituição em Portugal apareceu em 1841, com o livro de Santos Cruz, Da Prostituição na Cidade de Lisboa, que temos o gosto de apresentar e que com tanta oportunidade surge agora a público.

empty